domingo, 8 de março de 2009

O Sofisma de Pablo





O sonho de Pablo era ser advogado. Mas não qualquer advogadozinho. Queria ser um desses creditáveis advogados, que falam sempre a verdade.
Então era isso que fazia de Pablo um piá único: ele queria falar sempre a verdade.
Já na faculdade de Direito, se chegava atrasado não dava desculpa furada.
- Ah professor é que um azulzinho me atacou justo quando eu estava chegando.
Não.
- Passei a noite na delegacia por dirigir embriagado. Quebrei o farol do Corolla na batida e a loura se salvou graças ao air-bag - o dela.
Que professor não ficaria emocionado com uma verdade dessas? Um aluno pegador de loura siliconada não é um mané. Portanto não leva cartão amarelo.
Ficaram algumas dúvidas no ar, evidentemente:
- Por que tu não pegaste um táxi?
- Teu chofer tava de férias?
- Bebeu mais do que podia?
Ele não esperou, já foi respondendo, com a verdade:
- Loura siliconada sem álcool e sem carro? Só se for o cabelereiro dela.
Chegou a formatura e ele jurou perante os doutores e a platéia que no exercício da sua profissão lutaria pela justiça e blá blá blá, até que a morte me separe dela - a justiça.
Falou a verdade e somente a verdade.
Alguém ainda gritou da arquibancada: e serei amante da corrupção.
Neste instante ele respondeu ao juramento: Sim. Abaixou o braço e sentou-se. Um murmúrio seguido de silêncio invadiu o auditório. Nenhuma autoridade se manifestou. Estava jurado!
Com a carteira da OAB no bolso trabalhava na sua primeira defesa. Teve que jurar sobre a Bíblia que diria a verdade. E jurou! Pela sua própria cabeça.
Sobre o cucuruto do réu pendia a espada da justiça humana e sob seus pés um calabouço estava por se abrir - o da condenação.
Acusado de comprar ilegalmente marfim trazia um crucifixo no pescoço.
A única testemunha jazia inerte a um canto coberta por um manto de veludo: uma criselefantina. Assentado o juiz ergueu-se o pano e Oh! que beleza, uma escultura em marfim vestida de ouro encheu o salão de admiração.
- Meritíssimo! A acusação alega que essa majestosa criselefantina foi encontrada em posse do réu, que é escultor. E além disso este não soube explicar a não existência de nota fiscal nem falsa nem verdadeira para a compra do marfim. No entanto, essas notas na minha mão, são todas verdadeiras.
A acusação protesta. Não há nota alguma na mão do advogado de defesa.
Pan Pan Pan
O juiz solicita que Pablo reinicie a defesa.
Pablo diz que sabe o que está dizendo e prossegue, sem intervenção.
- Meritíssimo existe alguma nota na minha mão que seja falsa? Não. Então todas as notas que estão na minha mão são verdadeiras.
Pan Pan Pan
O réu é declarado inocente.
Acredite! O último que contou essa história ainda está com a boca quente.


sábado, 7 de março de 2009

Presente de Carnaval



Lula pedindo votos no Carnaval. Cada camisinha um voto.
O carinha pára na frente da guria, já na cama, na posição de guerra, ou melhor, de amor - ainda vale o antigo refrão "não faça guerra faça amor" - ergue a camisinha orgulhoso, estufa o peito e gaba:
- Oh, ganhei do Lula.
A guria levanta um ar de dúvida e antes que ela pergunte "Jura?" ele confirma:
- É sério.
E acrescenta: - Vou votar nele na próxima eleição. O Lula vai ser o rei do Brasil. Lula aqui embaixo e Deus lá em cima.
- Ai amorr, deixa disso. Só porque Carnaval é tempo de fantasia não precisa exagerar, né?
- Olha aqui, eu já disse, eu tô falando sério.
A essa altura o climão já era. Era glacial. Pra piorar a situação o carinha se irrita, sacode a guria e implora:
- Fala que acredita. Fala.
Com voz arrastada: - Tááá booom eu aaacreeediiitooo.
- Fala que eu sou o rei agora. Fala.
Vigoroso: - Meu rei.
- Isso, mais alto.
Gritado: - Meu rei.
- Isso, agora sim.
O carinha abre o pacotinho suando às bicas, veste o guarda-chuva de passarinho e levanta a embalagem enquanto olha pra o céu:
- Valeu Pai.
Agora traz a embalagem em direção à boca e beija-a:
- Valeu Lula.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O falso protesto



Uma vez numa terra longínqua há muitos anos alguém se tornou meu inimigo. Com letras capitais: INIMIGO. E eu não gostava nadinha desse inimigo. Queria que ele se manifestasse contra mim para que eu tivesse chance de desmascará-lo, de combatê-lo. Mas nada acontecia.

Eu bem sei, ele me maldizia pelas costas. Logo eu que não tenho culpa de nada. Justo eu que sempre fracasso em tudo e, portanto, não tenho motivos para ter inimigos.

Pois bem, como era de se esperar, planejei uma ação coordenada. Seria assim: eu picharia - euzinha mesma - uma parede da minha casa: PERSSONNA NON GRATA
Ato contínuo faria queixa na delegacia de polícia.

Talvez as pessoas não saibam que eu sou dada a uma pichação. Básica. Spray preto.
Acho magnífico o dourado, o prateado. Ainda não experimentei. Nem sei se vou. Afinal, valorizo a liberdade.

Então picharia a minha própria parede em protesto ao meu inimigo. Autodestruição? Loucura? Não. Estratégia.

O detalhe é que o meu inimigo era pessoa muito conhecida e inclusive detendo poder político e social. Mas nem de longe tão querida quanto eu. Digo eu, o personagem da minha história. Não me metam nessa confusão por favor.

E a reação foi exatamente aquela que eu esperava. Caiu todo mundo em cima da cabeça do meu inimigo. Bem, demorou um tempinho até as autoridades se certificarem que fora ele o autor do crime.

O coitado tentou se defender, apresentou álibi e tudo mais. Só que eu como tinha fama de falar sempre a verdade ganhei a causa. Eis aí o instrumento mais poderoso de engano que existe: a fachada de santidade. A dissimulação.

Foi assim que eu consegui desarmar o meu inimigo, antes que ele se levantasse contra mim pra me destruir. Com o provérbio alemão: A ação tem um impacto mais poderoso do que a palavra.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Meu primeiro texto




Encontrei uma pérola esse fim de semana no meu quarto. É o primeiro texto que eu escrevi. Depois de grande, claro. Nada de redações sobre árvores e familiares, lá do primário. Nunca fui ruim em redação. Aliás, sempre fiquei acima da média. Meu segundo melhor score no vestibular foi redação.

Não obstante nunca imaginei que poderia escrever um blog de textos. Só porque me deram um empurrãozinho mesmo. E agora eu não consigo mais parar. Não posso mais parar. Fiquei dependente. Viciei.

Então voltando ao assunto inicial o tal do texto é uma iniciação à numerologia. Alguma parte copiei do Terceiro Motivo, de Malba Tahan. Aí vai:

A propósito, quem inventou o ano de 12 meses só podia ter sido a igreja mesmo. Afinal, foram 12 os apóstolos, foram 12 as tribos de Israel, 12 os fundamentos da Nova Jerusalém...

Note que o mês lunar - período entre duas lunações iguais - tem 29,5 dias, e o mês civil 28 a 31 dias. Se o mês civil tivesse 28 dias - o que seria vantagem para as mulheres com ciclo regular, pois não teriam mais que calcular a data da próxima menstruação - teríamos 365 = 13 * 28 + 1, ou seja, 13 meses de 28 dias mais um dia sobrando - que poderia ser decretado feriado.

Outra curiosidade: os sacerdotes pagãos adoradores do sol usavam amuletos com quadrados mágicos 6X6 que somavam 111 horizontalmente, verticalmente e diagonalmente. Logo as seis linhas e colunas somavam 666. Acho que você já ouviu falar desse número não é?

Este número simbólico repete o 6 três vezes porque o 3 é a veneração dos pagãos. O número três para o pitagóricos - os seguidores de Pitágoras, aquele matemático do triângulo retângulo, você deve saber - era tido como um número divino. O sete era o número sagrado. O quatro simbolizava o mundo material.

Até hoje os sábios e os doutores que analisam os mistérios dos Ritos e Símbolos, não descobriram a razão de ordem social ou moral pela qual o Al Corão fixou em quatro o número de esposas legítimas que um bom muçulmano pode trazer para a sombra do seu lar.

Por que não cinco, sete ou mesmo treze? Estudem os filósofos e matemáticos esse problema que se apresenta até agora como insolúvel.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Miraflor




As ondas quebravam no azul do mar celeste.

A leste o sol a aquecia com seu calor.

Nenhuma gota caía na pele macia de Miraflor.

Miraflor estava nua, sua cútis crua atraía a luz radiante

Galante, alguém a contemplava.

Lá em cima, murmurava:

Que menina!

Nuvens densas se interpõem entre Miraflor e o seu admirador.

Que horror!

O vento norte balança o pé de Miraflor.

A chuva de verão rega o pé de Miraflor.

Miraflor sai do banho perfumada.

Alada, voa ad infinitum.

Adeus terra.

A Deus.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ele disse que não é fiel




- Eu não sou fiel - ele me disse.

Meus Deus! E eu que pensava que ele era um cafajeste. Ainda me lembro bem da primeira vez que nos encontramos, foi quando nos conhecemos, claro. Eu não acreditava que ele fosse boa pessoa. No caminho pra casa, no trem de superfície - ele me acompanhou até a minha cidade - eu lhe fiz uma pergunta ingênua:

- Como vou saber se tu não vais me fazer mal?

Ele respondeu algo que era verdade, embora eu não tenha levado a sério. Não confiava nele de maneira alguma. Mas gostava dele e estava decidida a saber que tipo de pessoa ele era antes de desistir de tudo.

- Um cafajeste não sai do seu campo de ação - foi a resposta dele, mais uma explicação do que uma resposta.

Ali à frente eu iria me certificar que ele não era uma cara mau de fato. Aliás, nunca conheci pessoa tão sincera.

Agora, anos depois nos reencontrávamos e ele me perguntava se eu sentira saudades. Eu não sentira muito, mas como ele estava radiante de me encontrar, disse que havia sentido. Até porque fiquei feliz em revê-lo e isso de alguma maneira era prova da minha saudade.

Depois de um breve interrogatório sobre a minha vida corrente, me veio com esta:

- Eu não sou fiel.

Realmente ficou confirmado de uma vez por todas, ele não era um aproveitador de mocinhas do interior.

Mais: O que levou esse indivíduo a crer que eu sou fiel?

Só porque eu gostei dele no passado?

Ou pelo meu jeito de ser, de me portar?

Quem sabe ele ficou cuidando pra ver se eu olhava pra outros rapazes?

Muito revelador este ocorrido. Mostra pelo menos um motivo pelo qual os homens sentem-se tão ofendidos quando se sentem ou se descobrem traídos por uma companheira mulher. Eles simplesmente pensam que nós somos fiéis por natureza. Aquela velha ladainha que os homens são diferentes das mulheres.

Eu seria mesmo fiel àquele carinha se nós tivéssemos ficado juntos. Pelo menos enquanto eu gostasse dele. E depois? Eu poderia traí-lo com outro e abondaná-lo pra ficar com esse alguém.

Não teve um sujeito iminente que disse que tudo é relativo?

Só queria dizer que os homens não são assim tão diferentes das mulheres e sim o que eles pensam e desejam, porque a educação deles é diferente da nossa.

Enquanto os homens pensarem assim vão continuar cometendo crimes passionais e se afundando no álcool e se desiludindo das mulheres por causa de seus chifres totalmente inesperados. Acho que é por isso que se diz no meio masculino "chifre é como consórcio". "Quando o cara menos espera é contemplado". Quer dizer que os homens via de regra são pegos de surpresa.

Ainda sobre os raciocínios equivocados dos homens. A maioria dos machos classifica as mulheres em apenas dois grupos: damas e vagabundas. Se a mulher é um pouco mais fogosa que o normal já entra pra o time das putanas. Se bem que às vezes, putana pode soar como elogio. Como quando dizem: a esposa perfeita é aquela que é uma dama na sala e uma puta na cama.

Ah, tinha um conhecido que sonhava ter uma mulher que fosse dama na sala, puta no quarto, empregada na cozinha, faxineira no banheiro, lavadeira na área de serviço...

E outro mais esperançoso que este dizia que a esposa perfeita era aquela que fosse uma dama até o dia do casamento e neste dia se transformasse em vagabunda.

Um terceiro ansiava por ter uma mulher que fosse meio dama e meio vagabunda, na casa inteira evidentemente.

E ainda um quarto desejava muito ter uma mulher que não fosse nem dama nem vagabunda. Ficou solteiro sem dúvida.

E por último um quinto almejava ter duas esposas: uma dama e uma vagabunda.

Na vida real as mulheres podem ser bem diferentes do que os homens são capazes de conceber. Só pra ter uma idéia: sei de uma mulher que enquanto fazia sexo não gemia aiaiaiai. Nem tampouco ficava muda à moda tenista russa. Adivinha o que ela fazia?

Gritava alface alface alface. É que ela gostava muito de alface gente.

Também conheci uma mulher que na hora do clímax sexual esperneava e gritava:

- Arginina alpha ketoglutaratoooooo.

O namorado dela ficava constrangido. Ele não entendia o que aquilo significava, o que ela queria dizer com aquilo. Até o dia em que ele perguntou pra ela e aí ela explicou direitinho:

- Ah, amorrr. É que a AAKG me dá um prazer fenomenal. É isso.

Então ele também quis tomar a tal arginina alpha ketoglutarato. Daí ele sentiu na pele o que ela queria dizer com arginina alfa keto glutaratooooo.

No fim o cara teve um piripaque e veio a falecer. Só então descobriram que ele tinha um problema renal e por isso não podia tomar AAKG.

Moral da história: Nunca vá atrás da conversa de uma mulher.

Ah, Adão que o diga.


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Teoria da Conspiração




Hoje o banco me avisou que vai me mandar um cartão com chip. Legal. Hoje depositei 100 reais no envelope na minha conta corrente.

Ultrapassado. Dinheiro em cédula é coisa arcaica. Ademais, dinheiro não devia ser concreto. Devia ser abstrato, onipresente e seguro. Como o pensamento. Ninguém toca, ninguém rouba e ele sempre está lá.

Só se for um... chip? Essa não. Satélites me vigiando 24 horas é big brother eterno. Vai chorando que se a moda pega... E antes que isso aconteça ou algo parecido eu espero me juntar àquela tribo indígena lá no meio da Amazônia que nunca viu o homem branco.

E se você ainda está soluçando pare por um minuto descanse e se console porque existe algo pior do que ter um chip implantado na mão ou no braço ou na perna. É ter um chip implantado dentro do cérebro. Já viu aqueles mapas neurológicos de atividade cerebral? Então. Não é possível alguém saber exatamente o que você está pensando mas é possível ter uma idéia, pelas zonas cerebrais ativadas. É pior que big brother, é pior que Orkut, é pior que bina, é pior que cartão corporativo. Quer saber? É o fim.

Portanto ser assaltado é uma liberade que nós temos hoje em dia. Do ladrão, infelizmente. Pensar pensamentos só nossos sem interferência, também é uma liberdade. Essa de todos. A não ser que o seu olho brilhe, daí eles vão descobrir que você está apaixonado.

Em tempos de dinheiro abstrato assalto assumiria outra nomenclatura: sequestro seguido de anestesia total e corrupção de cirurgião para o transplante de chip após adulteração de dados com falsificador hacker.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Rabinho do Rabanete



Já viu rabinho de rabanete? É impressionante. É. Um simples rabinho.

Vou dizer por quê.

Eu estava fazendo uma salada de rabanete. A receita mandava pôr cebolinha e iogurte e rabanete. Então eu peguei a tábua de cortar e apanhei os rabanetes e a faca e pus-me a cortar os rabinhos dos rabanetes. Afinal, quem gosta de comer rabinho de rabanete? Hum, é algo inusitado comer rabinhos, não é?

Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, quando eu levantei a faca pra cortar o primeiro rabinho - eram quatro rabanetes ao todo - o rabinho se mexeu e eu pude ouvir um gritinho de dor. Parecia pedir piedade. "Por favor não me corte, vai doer, vai sangrar e o rabanete vai morrer".

Eu estava diante de um fenômeno. Um rabanete que se comportava como rato. Quem sabe na outra encarnação ele foi um rato. É. Você duvida. Mas eu cheguei a cogitar essa hipótese. E esse pensamento me fez ter receio de pegar o rabanete. Ratos transmitem doenças, sabe como é...

Eu iria desvendar aquele fenômeno. Ah, ia. Sabe, sempre que eu não entendo alguma coisa eu fico pensativa, às vezes me deito na cama e fico refletindo. E não acho explicação rápida, 99 por cento das minhas tentativas. E nem sempre tenho tempo para continuar refletindo indefinidamente até encontrar a resposta. Outras vezes disponho de tempo, mas a mente cansa. Nos piores casos, as idéias se chocam, as peças não se encaixam, e o esforço mental me dá dor de cabeça. Então desisto e me levanto e, ou desisto ou deixo pra continuar a 'matutação' outra hora.

Quando o mistério é grande fico perturbada. Nem sempre conscientemente. Tenho pesadelos. E a angústia é grande. Muito grande. É como tentar resolver um problema de matemática daqueles bem difíceis. Só que frequentemente há um agravante: A falta de dados. Aí tenho que sair perguntando pra todos os fulaninhos que tem parte na história. E não é na hora que eu quero. É quando a oportunidade surge.

Se não faltam dados sobra ignorância sobre o assunto em questão. Daí corro pra os livros ou pra internet - a internet é uma benção.

A melhor coisa pra atacar um grande problema é desistir dele primeiro. É algo que me dá uma força incrível pra enfrentá-lo. Porque depois que eu desisti, não corro o risco de ficar arrasada se tudo der errado. Quero dizer, o que vier é lucro. Então, vamos lutar pra vir, não é? É uma maneira de fugir da sensação de fracasso. Sentimento devastador esse, consome as energias e detona a autoconfiança.

Voltando ao rabinho do rabanete. Enojada como eu estava do rato-rabanete - aí está uma ligação do reino animal com o vegetal que eu não tinha me dado conta - passei a picotear a cebolinha. E a cebolinha me fez arder os olhos e chorar. E chorar e chorar e chorar.

E enquanto eu chorava em cima da tábua de cortar legumes, ouvi um grito:

-O rabanete está fugindo.

E outro grito:

-A cebolinha vai te pic...

Aai! Gritei. A cebolinha não me picou, e o rabanete parou de se mexer.


Ah, faltou a explicação do fenômeno. Não se desespere. A resposta sempre vem, mesmo que você tenha que se angustiar por ela.


domingo, 2 de novembro de 2008

A Origem do Vampiro




Lá está a mocinha no quintal da casa caminhando inocentemente quando aparece do nada o vampiro e CRAW! O olho do telespectador "vê" nesse momento em fração de segundo a imagem do conde. Uma mensagem subliminar. Posteriormente ao vê-lo de fato seu cérebro já sabe quem é o vampiro.

Todo vampiro teve uma história íntima de relacionamento com o sangue na infância.

Certa vez entrevistei um vampiro, não tão famoso quanto o Conde, mas muito mais ativo do que ele.

Recebeu-me em sua asquerosa residência onde fui convidada a sentar em um sofá preto de couro. Uma doméstica serviu-me algo da cor do vinho tinto. Desconfiei.

"Acidentalmente" derrubei a mistura fina no tapete e, oh! que horror, o líquido em poucos segundos coagulou. Porque não coagulara na taça fiz promessa de jamais contar a ninguém.

O vampiro, agora já falecido, contou-me que na sua melancólica infância na fazenda do seu avô foi obrigado por este a capinar sob o sol causticante. Os pais do menino tinham morrido de uma peste qualquer. E, não obstante o chapéu de palhas cobrindo-lhe a cabeça, o calor dilatava suas artérias provocando assim uma hemorragia nasal, que descia pela sua garaganta e atravessava o seu esôfago indo atingir o seu estômago e ali era digerida.

Na sua boca o gosto peculiar do sangue vivo foi acostumando e pervertendo o seu paladar pouco a pouco. Com o passar dos dias foi tomando gosto pelo sabor quente do seu próprio fluido vital.

Um dia seu avô lhe perguntou:

- Por que estás tão pálido meu filho? Viste alguma assombração?

- Não meu avô, eu mesmo sou a assombração - ele não teve coragem de contar a verdade ao seu avô. Temia-o por demais.

Claramente o vampirinho apresentava sintomas de anemia. Porém não sabia. Apenas sentia-se fraco, muito fraco, cada dia mais fraco. Pior: Tão viciado estava naquele néctar morno, que descendo pelo seu interior aquecia a sua alma abandonada pela sorte, passou a provocar o sangue, com cortes de canivete, às escondidas.

A anemia minava-lhe o vigor. Já não conseguia parar em pé debaixo do Sol mais do que uma hora. Aquilo foi alimentando um pavor de ser descoberto pelo temido avô. Escondia-se na estrebaria durante o período de trabalho para não ser descoberto vagueando a esmo pelo campo.

Em meio aos cavalos chorava copiosamente o seu destino a ponto de os equinos deixarem escapar uma lágrima de comoção. Passados alguns dias se deu conta da força de seus companheiros que passavam noite e dia em pé sem se queixar de fraqueza ou cansaço. Foi quando teve uma idéia, uma terrível idéia. Sua condição mórbida estava o transformando em uma criatura disposta a qualquer atrocidade para sobreviver.

Alguns meses depois, estando na cozinha do casarão, ouviu seu avô comentar com um empregado:

- Perdi um cavalo esta semana. Quero que tu descubras o motivo. Ele não estava sequer doente. Ao ouvir isto o menino entrou na sala onde os dois conversavam e explicou com a autoridade de quem fala a verdade:

- Os morcegos atacaram o seu xodó esta noite vovô. Pude escutar do meu quarto ele se debatendo.

- Eu sempre tive receio daqueles morcegos, mas não pensei que fossem capazes de tanto - exclamou o avô crédulo e soltou um suspiro prolongado.

O menino calou-se satisfeito. Acabava de obter a sua primeira vitória sobre aquele velho sem coração e sem noção. Agora estava a caminho da libertação. Não dependeria mais dele. Apenas dos cavalos.

Transcorrido um breve momento de silêncio paralisante seu avô levantou novamente a cabeça e fitou a infeliz descendência, fazendo viva observação:

- Como estás corado meu filho.

Nos anos que se seguiram aquele fazendeiro foi contemplado com a morte de 12 cavalos puro sangue. Sua mente o atormentava em pesadelos diários. Não conseguia entender a razão de tamanho infortúnio. O fato se espalhara pela vizinhança.

O menino se tornou um rapaz forte e robusto. Apaixonou-se por uma amiga de cavalgadas. Os dois enamoraram-se e encontravam-se secretamente por causa dos pais dela pois ela só tinha 14 anos.

Foi ela mesma quem se ofereceu:

- Por que tu não mordes o meu pescoço ao invés de passar o canivete nos inocentes cavalos?

Ele parou, pensou e consentiu.

Que garota era essa? Queria dar ao seu amado não somente a sua carne mas também o seu sangue. Tristes dias se passaram e enfim aquela donzela renegada entregou a sua vida. Morrera de amor. Louco amor. Principiante amor.

Daí em diante, o adulto vampiro trocou os cavalos pelas mulheres. As damas da redondeza temiam sair na rua à noite. Seus relatos incríveis impressionavam, suas marcas no pescoço testemunhavam de um ataque, contudo, mesmo com toda a evidência as pessoas se recusavam a acreditar no que elas diziam.

Porque era algo mais do que bizarro, era algo impossível de acontecer.

Incredulidade. Ah! desgraçada. Graças a ela o vampiro levou à frente o seu vício medonho sem nada que o impedisse. Ninguém jamais descobriu a sua identidade secreta:

- Eu mesmo sou a assombração.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pause and Play




-Você é Alemã?

-Sou descendente de alemães.

O cara ao meu lado se apresentou. Um sotaque medonho.

-Sou árabe.

-Árabe mesmo? Nascido lá no Oriente?

-Sim.

Parecia perturbado. Eu só ouvindo e ele só torrando os judeus.

Fiquei um pouco contrariada e ele percebeu o meu desgosto. Pensava nos meus amigos judeus. Que são pessoas de bem.

Pause.

No musical da Evita Perón tem uma parte que diz assim: quem manda no governo é o sujeito que está atrás do presidente.

Play.

O árabe defendia muito a engenharia.

-Porque meu filho faz engenharia, porque engenharia e engenharia...

Pronunciava engenheria.

Que vontade de gritar: Pelo amor de Alá pára de falar de engenharia.

Logo desviou pra o lado da guerra.

-Os judeus querem o nosso petróleo. Os judeus mandam no presidente americano.

Pause.

Saí do ar. Viajei viajando. Quer dizer que a tal guerra é só mais um pega-pega entre judeus e árabes?

Play.

O velho amargurado manquejava de uma perna, carregava uma muleta. Descemos no mesmo ponto. Ele apoiou-se no meu braço e me acompanhou até o ponto de táxi. Nunca mais nos vimos.

Tá. E daí?

Sem graça. Mundo sem graça. É sempre a mesma história.

Lente de Contato




Alguns meses atrás decidi fazer aula de musculação. Só pra variar um pouco a natação. Antes de iniciar a puxação de ferro, porém, consultei uma médica nutróloga.

Pois bem, entre outras coisas ela me receitou um suplemento de proteínas. Saí do consultório, passei lá no mercado e passei a mão no dito cujo. Fui-me embora para o meu ap, liguei o rádio e sentei no sofá com o tal pote.

Pus-me a ler o rótulo como de costume.

Dizia lá:

L-Metionina tantos mg,

L-Cistina tantos mg,

L-Tirosina,

L-Triptófano,

L-Potter...

L-Potter?

Desliguei o rádio pra não me inconfundir.

Peguei um LP antigo e pousei a agulha sobre a faixa: BCAA. Novamente segurei o meu pote com as duas mãos. Lá dizia:

L-leucina

L-isoleucina

L-valina

Silêncio no toca-discos. E nova faixa na sequência:

L-fenilalalalalalalalalala

Ai, esses discos riscados. Dá uma vontade de jogar no lixo. Voltei a agulha e meus olhos no potão só ouvindo:

L-fenilalanina

Pronto. Aí liguei a TVzona. Trailer de filme. Abri o frigobar, peguei algo lá dentro, a primeira coisa que a minha mão apalpou. E pupila no pote:

L-taurina

Red Bull me deu asas e haja

L-carnitina

pra bater aquelas asas.

Uma hora depois eu caía exausta em cima do sofá. Dê-lhe

ácido glutâmico pra repôr.

Foi tanto que passei mal. Resolvi só na L-PrOLINA. Guti guti.

Bateram na porta.

Quem L-SERInA?

Uma enciclopédia toda sabichona pulou da prateleira na minha mão. Foi logo falando:

L-Lisina, a hidrólise de proteínas produz o isômero opticamente ativo pertencente à série L.

Entendi tudo. Já fazia uma década que eu não abria um livro de Química Orgânica.

Mão no frigobar. Pepsi na mesa. Hora do Lanche:

Hamburguer vai pepsina vem. Hamburguer vem pepsina vai.

Dona Enciclopédia veja só isso:

L-Arginina

E enzima, e enzima e,

Dona Enciclopédia deu cria:

L-Ornitina

Ela empinou o nariz:

Não falei?

Pensei "O que vai acontecer agora?"

Nisso comecei a crescer e crescer e crescer e crescer e encostei no teto. A enciclopédia se apavorou, bateu a porta da estante e se fechou lá dentro com medo que eu a esmagasse. Fechou os olhos e ficou só esperando eu explodir.

Hormônio do Crescimento, hein? Fermento!

Continuei crescendo, toquei nas nuvens e as afofei.

Cadê o meu sofá? Não tinha sofá. Então deitei na nuvenzinha mais branca de todas.

Seu arco-íris o que eu faço pra ficar normal?

Toma um gardenal.

Eu tô falando sério.

Astro Sol o que eu faço pra voltar ao tamanho normal?

Me dá um beijo.

Tá brincando que eu ia queimar a minha boca toda.

No meu desespero me agarrei com o primeiro objeto voador identificado. Espiei pela janela pra dentro da cabina. O piloto automático tomou um susto grande. Brecou aquele troço, o OVI girou, girou, girou e a força centrífuga me encolheu de novo. Que paradoxo!

Chegando em casa, L-Carnosina pra cabeça. A enciclopédia espraiada na prateleira me aguardava, olhão arregalado.

GABA agora, falei. E engoli minha cápsula de ácido gama-amino-butírico.

No meio daquele pout-pourri de neurotransmissores me acalmei. E voei e voei e voei por lugares desconhecidos e encantados procurando por um orelhão. E quando o encontrei ele não funcionava.

Tentei voltar e não achava o caminho de volta. A minha turma tinha ficado na entrada do mundo astral e eu comecei a ficar preocupada. Sem saber o que fazer me lembrei da enciclopédia: Isômero opticamente ativo.

Aminoácido. Eu precisava urgentemente de um pra me mostrar o caminho de volta.

Agarrei o primeiro cogumelo que avistei, o alcalóide fez efeito antes do aminoácido, e uma fauna desfilou em volta da minha cabeça.

A fauna era selvagem e eu era a caça. E fugindo dela alcancei a minha turma e esta quis me devorar.

E eu voei outra vez e os canibais me alcançaram e me comeram.

...



sábado, 16 de agosto de 2008

Para comunicólogo ver



- Mariiia joga a chave.

- Eu não a estou achando meu bem.

- E agora Maria? Eu perdi a minha chave.

- Entra pelo túnel das telecomunicações.

- Do que tu estás a falar Maria?

- Este mesmo canal por onde entram as ondas eletromagnéticas.

- Ora Maria. Estás a me gozar.

- Não estou. Tu que estás a duvidar.

- Se tu me disseres onde se localiza a porta desse túnel, eu entrarei.

- Pega uma escada, uma bem alta que alcance as nuvens, onde se propagam as ondas eletromagnéticas, e pega carona com elas. Elas te mostrarão a porta.

- Mas Maria, eles são bem mais magrinhas do que eu, a porta deve ser um tanto estreita, e eu não conseguirei passar através dela.

- Meu bem tu conseguirás. É só o que posso te dizer.

- Até logo Maria. Aguarde-me um instante.

- Como chegaste rápido José.

- Tu não sabes a quantas por hora viajam as ondas eletromagnéticas?

- Eu já ia me esquecendo. Então como foi teu dia?

- Tal como saiu no jornal Maria.

- Tu não saíste no jornal José.

- Todas as notícias estão atrás do jornal.

- És tu que estás a me gozar, porque quando viro o jornal para trás a fim de ler sobre o teu dia, tuas notícias se movem para trás dele, e assim nunca consigo alcançá-las, como um cachorro que tenta morder o próprio rabo.

- Deixa isso pra lá Maria. Permita-me navegar agora nessa tua onda eletromagnética. Larga dessa pia.

- O celular está tocando. Não vais atendê-lo?

- Não estou de plantão nesta noite Maria. Venha logo se não vou navegar nas ondas da televisão.

- Já estou indo. Não vá me trair com a TV.

- Mas enquanto tu te demoras eu me distraio com o meu 3G.

- Estás me traindo com a Internet?

- Não Maria. Tu és muito desconfiada.

- Decerto sou. Está aqui a tua chave.

- Tu me enganaste Maria?

- Eu acabei de encontrá-la no bolso do teu casaco.

- Não creio que ela estivesse lá. Eu a procurei em todos os cantos.

- Tu desconfias de mim?

- Não só desconfio como acho que tu estás me traindo.

- Vamos acabar já com esse mal-entendido.

- De que maneira Maria? Eu simplesmente devo pôr de lado a minha tiara de cornos e ajeitar a minha cabeleira?

- Tu estás delirando.

- Pois que esteja. É que não consigo mais confiar em ti desde que tu me enganaste. Adeus Maria.

- Não meu José. O que tu vais fazer é uma loucura. Há de haver uma explicação.

- E a quem tu vais imputar a culpa?

- Foram as ondas, só pode, foram elas que colocaram as chaves no bolso do teu casaco assim que tu chegaste. Elas a tinham escondido certamente.

- Teremos que conversar sério com elas.

- Por favor. Não vá expulsá-las. São elas que nos comunicam com o mundo. Sem elas voltaríamos à idade da pedra.

- Venha cá Maria. Perdoa-me essa desconfiança.

- Oh meu José. Por pouco tu me deixavas. Vamos fazer um voto: Nunca nos deixaremos, mesmo que as más ondas infernizem o nosso casamento.

- Sim Maria. Olha ali atrás da cortina. Elas estão rindo de nós.

- É que a falta de comunicação acaba com qualquer relacionamento. Elas estão rindo da tua precipitação.

- Ah Maria. É duro ter que te dar a razão.

- Vês como é importante a comunicação?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Nostalgia de Ex-Crianças



-Eu gostava do Tom e Jerry

-E eu gostava do pica-pau

-Eu assistia todo dia o Batman à 1:30. Várias vezes cheguei atrasada na aula por causa dele.

-Eu adorava Jetsons, não tá mais passando né?

-Só na NET.

-Eu adorava a família de pedra. Tive uma boneca igual à Pedrita.

-Eu era fã do Scooby-Doo. E do Shmoo, um bichinho branco que virava qualquer coisa que ele quisesse.

-Ai, eu gostava do Van Damme.

-E eu da Mulher Maravilha.

-O homem-aranha eu ainda assisto.

-Fica quieto criança grande.

-Eu brincava com as minhas amigas de Penélope Charmosa. A gente se vestia toda de rosa.

-Não era de Pantera cor-de-rosa?

-Eu não perdia um Ducktales, os caçadores de aventuras. E eu acreditava que era tudo verdade.

-Eu morria de medo daqueles monstrinhos dos ursos carinhosos.

-Eu me apaixonei pelo He-Man.

-Isso não é nada. Eu beijei a She-Ha.

-Beijou a tela da TV, seu bobo.

-Eu me casei com a Jen, quer dizer, com uma das identidades secretas dela.

-Só tu mesmo.

-Dá licença que está na hora do meu desenho.

-Coitado. Pegou a Síndrome de Peter Pan.

-É que o papai smurf aqui é coruja e vai acompanhar o filhão.

-Então eu vou buscar a minha Branca de Neve no colégio.

-Até mais pessoal. It´s all folks!


A Coruja anãzinha



Ganhei uma coruja de pelúcia de uma amigo. Ele me mandou lá do Rio de Janeiro, um pouco pra cima, Paty dos Alferes.

Mandou um bilhete junto explicando: A coruja é o símbolo da sabedoria.

Não me considero digna de tal presente. Não imaginam o que eu faria se duas mulheres viessem a mim clamando em alta voz: Esse filho é meu. Só Salomão mesmo pra mandar cortar ao meio e dar metade pra cada uma. E a história conta que a mãe que bradou "não mata" levou o filho.

Fosse eu solicitada a tomar uma decisão justa e rápida mandava chamar o Conselho Tutelar. Oras, eles estão acostumados a lidar com dramas infantis (em todos os sentidos)todos os dias.

O fato é que, dizem os eruditos, a partilha era a decisão comumente tomada no caso de haver disputa de quaisquer bens. Salomão apenas teria aplicado a regra ordinária.

Voltando à coruja. Coloquei-a no canto da minha cama, junto à parede. Ela permaneceu lá por um bom tempo, dormindo de dia e me vigiando à noite.

Mas eu tinha um quê contra ela. Achava-a horrível, baixinha, achatada. Calculei que tivessem errado a sua proporção. Um belo dia tive plena consciência dessa desafeição pela feiosa vigia noturna. Movida pelo desejo de confirmar a minha hipótese ou refutá-la para sempre abri uma enciclopédia, a Conhecer, e consultei o verbete coruja.

Dizia lá: A coruja tem 21 cm. Em seguida guardei o volume de volta na estante e peguei a régua, estas de estudante. Tirei a anãzinha do canto da cama e a medi: 21 cm. Por algum tempo me diverti mostrando a coincidência às pessoas que vinham em nossa casa.

Acho difícil definir sabedoria. Nem mesmo o dicionário possui uma definição satisfatória. Há pelo menos uns 10 significados diferentes para este verbete.

Sócrates dá uma luz: Só há um bem que é a sabedoria e um mal que é a ignorância.

Então a sabedoria opõe-se à ignorância. Quer dizer, é algum tipo de conhecimento.
É um bom início.

Quero ressaltar que é muito popular uma falsa concepção de sabedoria, aquela em que o sujeito muito graduado, cheio de títulos é tido com uma pessoa sábia.

Não é a esse tipo de conhecimento que Sócrates se refere. Não é sequer necessário frequentar uma universidade para ter sabedoria. Pior, há casos de doutores, pesquisadores, verdadeiras estrelas e astros intelectuais que cometem enormes desatinos no que se refere à vida pessoal. Daí perguntam. Como pode? Não é um doutor?

É que conhecimento técnico não é sabedoria. Tampouco inteligência. Esta última mede apenas a capacidade de processar e armazenar conhecimentos em nossa sofisticada CPU chamada cérebro.

Acredito que a sabedoria, essa ferramenta tão preciosa, completamente indispensável na obtenção do sucesso e da felicidade é a "recém descoberta" Inteligência Emocional.



Previsão para a Olimpíada de 2012



O Comitê Olímpico Internacional agregará uma nova modalidade esportiva: o vôo. Nada surpreendente. É que devido ao aumento de moléculas poluidoras no ar do Rio de Janeiro, a densidade do mesmo se aproximará um pouco da aquática. Resumindo, o vôo olímpico será o nado aéreo, que é o próprio nado, porém dificultado pela menor densidade do meio e pelo medo de altura. Por falar nisso 1000 pés será uma boa altura para a execução do nado aéreo.


A Comissão Julgadora fará banca em um dirigível. A Tribuna de Imprensa marcará presença (como sempre) em monomotores (com direito a filmar a prova de arco e flecha lá de cima). E a população ordinária pagará ingresso para ver essa acirradíssima disputa de dentro do Paralelepípedo de Ar (um objeto voador identificado). Este IFO será fabricado pela Air France e controlado por 12 computadores de bordo infalíveis e não-sujeitos a bug (que o último bug não existe todo mundo sabe mas este será uma excessão).


É mister avisar que o preço do ingresso será bastante caro pois incluirá em seu valor o seguro de vida. Também é de bom tom informar aos desavisados para que não levem laptops ou celulares, claro. Isso porque em caso de naufrágio, digo, queda livre, diminuirá potencialmente o prejuízo.


Nos 4 anos que antecederão a Olimpíada de 2012 os EUA produzirão um novo fenômeno a quem chamarão de o homem-pássaro. Com suas enormes e flexíveis mãos de 60,3 cm ele se moverá no ar rarefeito como um bimotor. Este novo recordista mundial disputará 12 medalhas de ouro, uma ousadia nunca dantes vista. Além dos dois motores este atleta será dotado de braços muito corpulentos, muito mais que o próprio corpo, o qual terá a dimensão de uma perna. Só assim ele poderá nadar, digo, voar, acima da velocidade do som. Esta jóia do atletismo será o primeiro, único e último homem super-sônico. Só lhe faltarão mesmo as asas para que ele seja considerado um homem evoluído a ave. Ah, o principal, ia me esquecendo de dizer. Ele não acumulará ácido lático. Portanto, poderá voar ininterruptamente, ou, pelo menos, enquanto tiver energia.


Essa maravilha da aerodinâmica contará ainda com um traje especial, o Mach 12, uma carapaça com bico fino capaz de levantar-se na arrancada, que o permitirá desenvolver uma velocidade igual a 12 vezes àquela do som, isto é, 12*340 m/s. Tal indumentária também será a prova de aviador americano pois será feita de um material que repelirá pilotos inexperientes e terá dispositivos estabilizadores capazes de manter a posição do corpo até mesmo na ocorrência de ciclones, furacões, tornados, tsunamis e suas variantes.


Outro feito inédito: Eles o testarão sobre o Triângulo das Bermudas, para ver até onde vai a sua habilidade, pois se porventura for derrubado sairá nadando e estará a salvo; e é justamente aí que ele baterá o seu maior auto-recorde. Isso porque terá que fugir a nado daqueles monstros marinhos que engolem esquadras e esquadrilhas inteiras sem sequer arrotar.


Além dessa nova modalidade esportiva acrescentarão também, pelos mesmos motivos, o vôo sincronizado e as acrobacias aéreas, estas últimas, semelhantes às da FAB no sete de setembro, serão a grande novidade, pois não correrão o risco de sofrer qualquer acidente. Agora uma predição que alegrará os brasileiros: o Brasil será o grande campeão no vôo sincronizado para delírio dos espectadores e torcedores, que relaxarão e gozarão nas suas casas e no Paralelepípedo de Ar.


Em suma, a Olimpíada de 2012 deixará todos embasbacados, apalermados, paralisados, boquiabertas, estupefatos, muitos morrerão do coração (pois que morrem mais pessoas por causa de notícias boas do que ruins) e os que sobreviverem ficarão para sempre impressionados. Em todos os recantos deste Planeta a torcida coruja não dormirá jamais mas estará 24 horas com os olhos e os ouvidos plugados na TV digital, no rádio do carro, na internet banda larga e nos jornais e revistas flutuantes, os quais poderão ser lidos até dentro da banheira de aeromassagem nos hotéis de luxo (porque só neles haverá essa modernidade do conforto), sem precisar segurar com as mãos.


As pessoas passarão o tempo inteiro trocando comentários admirados pelo celular, pelo BlueTooth, pelo 3G, pelo e-mail, pelo scrap, pelo blog; gravarão as imagens fantásticas nos DVD´s, nos Blu-Rays, nos MP4´s através de câmeras fotográficas e filmadoras digitais; não darão descanso nenhum segundo para os jornalistas, para os jornaleiros, e os redatores, também os editores, os revisores, os tradutores, os repórteres, os locutores, os assessores de imprensa, enfim, os comunicadores em geral.


As paredes, e muros e estradas encher-se-ão de posters e outdoors vendendo artigos esportivos com as imagens dos aero-atletas (cabe observar que o super-homem não se assemelhará nem de longe ao homem-pássaro no quesito velocidade ultrasônica, mas ficará devendo e passará vergonha). Os publicitários desprezarão toda a gentalha inclusive os melhores tenistas do mundo como seus garotos-propaganda, também os Ronaldinhos da vida e as meninas do vôlei.


Porém, o final dessa odisséia olimpiadística trará consigo a desilusão, à volta ao mundo imaginário, digo, ao mundo real (já dizia um amigo filósofo que o mundo real é o mundo imaginário e o mundo imaginário é o mundo real ) e a censura ao elogio sem crítica. Isto porque os arapongas e demais agentes secretos passarão os 12 dias das provas aéreas conversando em códigos Morse, criptografando escutas telefônicas, recolhendo bilhetes e documentos oficiais e lendo livros especializados sobre o assunto do momento: o esporte aéreo.


O desfecho dessa investigação será precedido por uma onda de pixações reveladoras: O homem-pássaro é uma farsa. Por fim será apresentada toda a verdade: o nado aéreo, e o homem-pássaro, e o vôo sincronizado, e as acrobacias aéreas nunca existiram. Estas ditas modalidades esportivas foram apenas encenações feitas com cabos de aço (à la Tigre e o Dragão, ô filme bom esse assisti várias vezes) apagados digitalmente em Hollywood. E finalmente as luzes se acenderão e o lanterninha abrirá as portas de saída do cinema.



quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O Vocalista da Banda_4



- Mariana eu vou ao banheiro. Já volto.

- Eu vou junto. Me espera.

- Vai me largar justo agora?

- Aproveita pra fumar o teu back.

- E ai? Gostou dele?

- Mais ou menos.

- Como assim?

- Ele não tem classe.

- Mas tem manha.

- Será que ele chama todas de gatinha?

- Não. Só você.

- Ai. Eu me esqueci de perguntar o nome dele.

- Pergunta agora.

- Cê viu aquela tatoo que ele tem no braço?

- O que tem ela?

- É assustadora.

- É só tinta. Não vai te morder.

- Eu sei que não vai. Dããã.

- Qual é o problema?

- Dá impressão que o cara é marginal.

- Nada a ver.

- Até que ele é bonitinho.

- Vai fundo então.

- Vamos voltar antes que o maconha desista de esperar.

- Pô gatinha. Foi fabricar papel no WC?

- Qual é o teu nome?

- Pode me chamar de Tesla.

- Diferente.

- Por que você fica olhando para o meu Rothweiller?

- Ele me assusta.

- Cê quiser eu ponho um pano.

- Pano?

- Uma camiseta com manga.

- Não esquenta.

- Boa essa banda.

Tesla fica nervoso.

- Cê tá passando mal?

- Tenho que ir nessa.

- O que aconteceu? Não entendi nada.

- Ele tá conversando com uma moça. E tá beijando ela.

- Agora eu vou cruzar a perna pra o lado direito...


O Vocalista da Banda_3



- Mas eu sou tua melhor amiga. Tenho direito de saber.

- Por que você não chega no vocalista?

- Como? Ele não me conhece?

- Sei lá. Cruza as pernas e depois descruza; cruza e depois descruza; até ele se ligar, ahn?

- Vou tentar. Primeiro pra que lado?

- Tenta a esquerda.

- Tá. E agora?

- Espera meio minuto, descruza e depois cruza pra o outro lado.

- Vou pedir uma bebida. Garçon!

- Já deu meio minuto.

- Foi. Ele tá olhando?

- Ele não, mas o carinha da maconha tá.

- Essa não!

- Sua boba. Dá uma chance pra ele.

- Tá brincando.

- Ele tá vindo aqui. Se prepara.

- O nome da gatinha é Viviane?

- Não. Mariana.

- Sensacional. Essa cadeira aqui tava me esperando.

- Cê quer sentar pode sentar, mas não acende baseado na minha mesa.

- Vai dizer que a gata não curte um back?

- Só de longe.


O Vocalista da Banda_2



- Tu é viciada?

- Não. Só curto assim de longe. Não acendo um.

- Mas eu acendo. Vou buscar um agorinha. Espera um minuto.

- Agora que deu. Ela vai fumar debaixo do meu nariz.

- Eu fumo maconha desde os 15 anos. Aprendi com o meu namorado.

- Quem? O paixonite aguda?

- Claro que não, né? Eu não tô casada com ele.

- Cof, cof. Cê me dá licença que eu preciso fazer uma ligação. Já volto.

Dez minutos depois, olhando no relógio:

- Cadê a Mariana que não volta nunca?

- Voltei.

- Até que enfim. Pensei que ia me largar na mão.

- Cê ainda tá fumando essa porcaria?

- Essa eu não entendi. Cê não disse que tinha vindo sentar pra cá porque...

- De longe entendeu? Só de longe.

- Tá eu apago. Podia ter falado antes.

- Vamos sair daqui. Você poluiu todo o nosso ar.

- Vamos pra onde?

- Pra onde a gente estava antes.

- Indecisa.

- Então me convida pra festa, viu? Não esquece.

- Que festa?

- Cê não vai casar com o paixonite aguda?

- Ele não me pediu em casamento.

- E dai?

- Cê tá achando que eu vô pedir a mão dele?

- E esse papo de meu macho? Ele é só teu mesmo?

- Cê tá invadindo a minha vida particular.


O Vocalista da Banda_1



No meio da festa:

- Vamos sentar ali naquele banco?

- Por quê? Tá bom aqui.

- É que ali fica mais perto da banda. Aqui não dá pra ouvir direito.

- O quê? Fala mais alto que tem muito barulho.

- É que eu quero ver o vocalista de perto.

- Nem é tão bonito assim.

- Fala sério. Cê tá querendo me tirar do páreo pra disputar o bonitão sozinha.

- Ih, minha filha. Se liga. Eu já tô numa e cara é sério, viu?

- O vocalista também é sério. Olha a cara dele.

- Cara de bad boy traçador de fã ingênua.

- Cê tá me ofendendo.

- Tá bom. Cara de Aladin apaixonado.

- Eu vi você olhando pra ele sua fingida.

- Olhei pra guitarra dele.

- Cê gosta de sair com guitarra, eh?

- Prefiro sair com a bateria. Tem uma porção de pauzinhos.

- Cê curte japonês?

- Curto o meu homem. O meu macho.

- Isso é doença?

- O que cê tá insinuando?

- Paixonite aguda.

- Pode ser, mas pelo menos eu sei amar. Você só sabe ciscar.

- Não força. Pra falar a verdade eu vim sentar aqui pra ficar mais perto daqueles caras que tão fumando maconha.


Sobre a Decência e o Recato



O sujeito emparelhou o carro com a minha bicicleta e mandou:

- Está muito indecente esta tua calça.

- É assim que os homens gostam - retruquei cheia de razão de dentro da calça de lycra preta.

Era o regional de desbravadores - bem casado ele.

- Mas o homem prefere a semi-nudez que é pra ficar imaginando o que tem debaixo.

- Ahn.

- Não pode sair mostrando tudo que perde a graça.

- Então vou por o quê?

- Bota uma mini-saia semi-transparente.

Eu teria feito um comentário se ele não tivesse arrancado o carro em seguida perante os meus olhos arregalados


* * *

A preceptora mais séria entrou no saguão do dormitório justo no momento em que eu mostrava a maquiagem da Natura para as gurias. Chegou um pouco mais perto e pediu para ver um batom. Abri uma caixinha aleatoriamente e de lá saiu um batom vermelho vivo. Daqueles mais indiscretos, mais provocantes, mais proibidos. Daqueles que as antigas preceptoras mandavam de volta para o dormitório se pegassem uma desavisada usando.


Pensei: - Ferrou. Agora ela vai me expulsar daqui.
Tentei consertar a situação depressa; abri as outras caixinhas de batom e fui logo falando: - Tem outros mais discretinhos aqui se tu quiser.
Ela fez uma cara de decepção que eu queria ter fotografado.

E chiou: - Não. Mas eu gosto é daquele ali mesmo.

Ora, veja. Não se fazem mais preceptoras como antigamente.