sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Rabinho do Rabanete



Já viu rabinho de rabanete? É impressionante. É. Um simples rabinho.

Vou dizer por quê.

Eu estava fazendo uma salada de rabanete. A receita mandava pôr cebolinha e iogurte e rabanete. Então eu peguei a tábua de cortar e apanhei os rabanetes e a faca e pus-me a cortar os rabinhos dos rabanetes. Afinal, quem gosta de comer rabinho de rabanete? Hum, é algo inusitado comer rabinhos, não é?

Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, quando eu levantei a faca pra cortar o primeiro rabinho - eram quatro rabanetes ao todo - o rabinho se mexeu e eu pude ouvir um gritinho de dor. Parecia pedir piedade. "Por favor não me corte, vai doer, vai sangrar e o rabanete vai morrer".

Eu estava diante de um fenômeno. Um rabanete que se comportava como rato. Quem sabe na outra encarnação ele foi um rato. É. Você duvida. Mas eu cheguei a cogitar essa hipótese. E esse pensamento me fez ter receio de pegar o rabanete. Ratos transmitem doenças, sabe como é...

Eu iria desvendar aquele fenômeno. Ah, ia. Sabe, sempre que eu não entendo alguma coisa eu fico pensativa, às vezes me deito na cama e fico refletindo. E não acho explicação rápida, 99 por cento das minhas tentativas. E nem sempre tenho tempo para continuar refletindo indefinidamente até encontrar a resposta. Outras vezes disponho de tempo, mas a mente cansa. Nos piores casos, as idéias se chocam, as peças não se encaixam, e o esforço mental me dá dor de cabeça. Então desisto e me levanto e, ou desisto ou deixo pra continuar a 'matutação' outra hora.

Quando o mistério é grande fico perturbada. Nem sempre conscientemente. Tenho pesadelos. E a angústia é grande. Muito grande. É como tentar resolver um problema de matemática daqueles bem difíceis. Só que frequentemente há um agravante: A falta de dados. Aí tenho que sair perguntando pra todos os fulaninhos que tem parte na história. E não é na hora que eu quero. É quando a oportunidade surge.

Se não faltam dados sobra ignorância sobre o assunto em questão. Daí corro pra os livros ou pra internet - a internet é uma benção.

A melhor coisa pra atacar um grande problema é desistir dele primeiro. É algo que me dá uma força incrível pra enfrentá-lo. Porque depois que eu desisti, não corro o risco de ficar arrasada se tudo der errado. Quero dizer, o que vier é lucro. Então, vamos lutar pra vir, não é? É uma maneira de fugir da sensação de fracasso. Sentimento devastador esse, consome as energias e detona a autoconfiança.

Voltando ao rabinho do rabanete. Enojada como eu estava do rato-rabanete - aí está uma ligação do reino animal com o vegetal que eu não tinha me dado conta - passei a picotear a cebolinha. E a cebolinha me fez arder os olhos e chorar. E chorar e chorar e chorar.

E enquanto eu chorava em cima da tábua de cortar legumes, ouvi um grito:

-O rabanete está fugindo.

E outro grito:

-A cebolinha vai te pic...

Aai! Gritei. A cebolinha não me picou, e o rabanete parou de se mexer.


Ah, faltou a explicação do fenômeno. Não se desespere. A resposta sempre vem, mesmo que você tenha que se angustiar por ela.


domingo, 2 de novembro de 2008

A Origem do Vampiro




Lá está a mocinha no quintal da casa caminhando inocentemente quando aparece do nada o vampiro e CRAW! O olho do telespectador "vê" nesse momento em fração de segundo a imagem do conde. Uma mensagem subliminar. Posteriormente ao vê-lo de fato seu cérebro já sabe quem é o vampiro.

Todo vampiro teve uma história íntima de relacionamento com o sangue na infância.

Certa vez entrevistei um vampiro, não tão famoso quanto o Conde, mas muito mais ativo do que ele.

Recebeu-me em sua asquerosa residência onde fui convidada a sentar em um sofá preto de couro. Uma doméstica serviu-me algo da cor do vinho tinto. Desconfiei.

"Acidentalmente" derrubei a mistura fina no tapete e, oh! que horror, o líquido em poucos segundos coagulou. Porque não coagulara na taça fiz promessa de jamais contar a ninguém.

O vampiro, agora já falecido, contou-me que na sua melancólica infância na fazenda do seu avô foi obrigado por este a capinar sob o sol causticante. Os pais do menino tinham morrido de uma peste qualquer. E, não obstante o chapéu de palhas cobrindo-lhe a cabeça, o calor dilatava suas artérias provocando assim uma hemorragia nasal, que descia pela sua garaganta e atravessava o seu esôfago indo atingir o seu estômago e ali era digerida.

Na sua boca o gosto peculiar do sangue vivo foi acostumando e pervertendo o seu paladar pouco a pouco. Com o passar dos dias foi tomando gosto pelo sabor quente do seu próprio fluido vital.

Um dia seu avô lhe perguntou:

- Por que estás tão pálido meu filho? Viste alguma assombração?

- Não meu avô, eu mesmo sou a assombração - ele não teve coragem de contar a verdade ao seu avô. Temia-o por demais.

Claramente o vampirinho apresentava sintomas de anemia. Porém não sabia. Apenas sentia-se fraco, muito fraco, cada dia mais fraco. Pior: Tão viciado estava naquele néctar morno, que descendo pelo seu interior aquecia a sua alma abandonada pela sorte, passou a provocar o sangue, com cortes de canivete, às escondidas.

A anemia minava-lhe o vigor. Já não conseguia parar em pé debaixo do Sol mais do que uma hora. Aquilo foi alimentando um pavor de ser descoberto pelo temido avô. Escondia-se na estrebaria durante o período de trabalho para não ser descoberto vagueando a esmo pelo campo.

Em meio aos cavalos chorava copiosamente o seu destino a ponto de os equinos deixarem escapar uma lágrima de comoção. Passados alguns dias se deu conta da força de seus companheiros que passavam noite e dia em pé sem se queixar de fraqueza ou cansaço. Foi quando teve uma idéia, uma terrível idéia. Sua condição mórbida estava o transformando em uma criatura disposta a qualquer atrocidade para sobreviver.

Alguns meses depois, estando na cozinha do casarão, ouviu seu avô comentar com um empregado:

- Perdi um cavalo esta semana. Quero que tu descubras o motivo. Ele não estava sequer doente. Ao ouvir isto o menino entrou na sala onde os dois conversavam e explicou com a autoridade de quem fala a verdade:

- Os morcegos atacaram o seu xodó esta noite vovô. Pude escutar do meu quarto ele se debatendo.

- Eu sempre tive receio daqueles morcegos, mas não pensei que fossem capazes de tanto - exclamou o avô crédulo e soltou um suspiro prolongado.

O menino calou-se satisfeito. Acabava de obter a sua primeira vitória sobre aquele velho sem coração e sem noção. Agora estava a caminho da libertação. Não dependeria mais dele. Apenas dos cavalos.

Transcorrido um breve momento de silêncio paralisante seu avô levantou novamente a cabeça e fitou a infeliz descendência, fazendo viva observação:

- Como estás corado meu filho.

Nos anos que se seguiram aquele fazendeiro foi contemplado com a morte de 12 cavalos puro sangue. Sua mente o atormentava em pesadelos diários. Não conseguia entender a razão de tamanho infortúnio. O fato se espalhara pela vizinhança.

O menino se tornou um rapaz forte e robusto. Apaixonou-se por uma amiga de cavalgadas. Os dois enamoraram-se e encontravam-se secretamente por causa dos pais dela pois ela só tinha 14 anos.

Foi ela mesma quem se ofereceu:

- Por que tu não mordes o meu pescoço ao invés de passar o canivete nos inocentes cavalos?

Ele parou, pensou e consentiu.

Que garota era essa? Queria dar ao seu amado não somente a sua carne mas também o seu sangue. Tristes dias se passaram e enfim aquela donzela renegada entregou a sua vida. Morrera de amor. Louco amor. Principiante amor.

Daí em diante, o adulto vampiro trocou os cavalos pelas mulheres. As damas da redondeza temiam sair na rua à noite. Seus relatos incríveis impressionavam, suas marcas no pescoço testemunhavam de um ataque, contudo, mesmo com toda a evidência as pessoas se recusavam a acreditar no que elas diziam.

Porque era algo mais do que bizarro, era algo impossível de acontecer.

Incredulidade. Ah! desgraçada. Graças a ela o vampiro levou à frente o seu vício medonho sem nada que o impedisse. Ninguém jamais descobriu a sua identidade secreta:

- Eu mesmo sou a assombração.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pause and Play




-Você é Alemã?

-Sou descendente de alemães.

O cara ao meu lado se apresentou. Um sotaque medonho.

-Sou árabe.

-Árabe mesmo? Nascido lá no Oriente?

-Sim.

Parecia perturbado. Eu só ouvindo e ele só torrando os judeus.

Fiquei um pouco contrariada e ele percebeu o meu desgosto. Pensava nos meus amigos judeus. Que são pessoas de bem.

Pause.

No musical da Evita Perón tem uma parte que diz assim: quem manda no governo é o sujeito que está atrás do presidente.

Play.

O árabe defendia muito a engenharia.

-Porque meu filho faz engenharia, porque engenharia e engenharia...

Pronunciava engenheria.

Que vontade de gritar: Pelo amor de Alá pára de falar de engenharia.

Logo desviou pra o lado da guerra.

-Os judeus querem o nosso petróleo. Os judeus mandam no presidente americano.

Pause.

Saí do ar. Viajei viajando. Quer dizer que a tal guerra é só mais um pega-pega entre judeus e árabes?

Play.

O velho amargurado manquejava de uma perna, carregava uma muleta. Descemos no mesmo ponto. Ele apoiou-se no meu braço e me acompanhou até o ponto de táxi. Nunca mais nos vimos.

Tá. E daí?

Sem graça. Mundo sem graça. É sempre a mesma história.

Lente de Contato




Alguns meses atrás decidi fazer aula de musculação. Só pra variar um pouco a natação. Antes de iniciar a puxação de ferro, porém, consultei uma médica nutróloga.

Pois bem, entre outras coisas ela me receitou um suplemento de proteínas. Saí do consultório, passei lá no mercado e passei a mão no dito cujo. Fui-me embora para o meu ap, liguei o rádio e sentei no sofá com o tal pote.

Pus-me a ler o rótulo como de costume.

Dizia lá:

L-Metionina tantos mg,

L-Cistina tantos mg,

L-Tirosina,

L-Triptófano,

L-Potter...

L-Potter?

Desliguei o rádio pra não me inconfundir.

Peguei um LP antigo e pousei a agulha sobre a faixa: BCAA. Novamente segurei o meu pote com as duas mãos. Lá dizia:

L-leucina

L-isoleucina

L-valina

Silêncio no toca-discos. E nova faixa na sequência:

L-fenilalalalalalalalalala

Ai, esses discos riscados. Dá uma vontade de jogar no lixo. Voltei a agulha e meus olhos no potão só ouvindo:

L-fenilalanina

Pronto. Aí liguei a TVzona. Trailer de filme. Abri o frigobar, peguei algo lá dentro, a primeira coisa que a minha mão apalpou. E pupila no pote:

L-taurina

Red Bull me deu asas e haja

L-carnitina

pra bater aquelas asas.

Uma hora depois eu caía exausta em cima do sofá. Dê-lhe

ácido glutâmico pra repôr.

Foi tanto que passei mal. Resolvi só na L-PrOLINA. Guti guti.

Bateram na porta.

Quem L-SERInA?

Uma enciclopédia toda sabichona pulou da prateleira na minha mão. Foi logo falando:

L-Lisina, a hidrólise de proteínas produz o isômero opticamente ativo pertencente à série L.

Entendi tudo. Já fazia uma década que eu não abria um livro de Química Orgânica.

Mão no frigobar. Pepsi na mesa. Hora do Lanche:

Hamburguer vai pepsina vem. Hamburguer vem pepsina vai.

Dona Enciclopédia veja só isso:

L-Arginina

E enzima, e enzima e,

Dona Enciclopédia deu cria:

L-Ornitina

Ela empinou o nariz:

Não falei?

Pensei "O que vai acontecer agora?"

Nisso comecei a crescer e crescer e crescer e crescer e encostei no teto. A enciclopédia se apavorou, bateu a porta da estante e se fechou lá dentro com medo que eu a esmagasse. Fechou os olhos e ficou só esperando eu explodir.

Hormônio do Crescimento, hein? Fermento!

Continuei crescendo, toquei nas nuvens e as afofei.

Cadê o meu sofá? Não tinha sofá. Então deitei na nuvenzinha mais branca de todas.

Seu arco-íris o que eu faço pra ficar normal?

Toma um gardenal.

Eu tô falando sério.

Astro Sol o que eu faço pra voltar ao tamanho normal?

Me dá um beijo.

Tá brincando que eu ia queimar a minha boca toda.

No meu desespero me agarrei com o primeiro objeto voador identificado. Espiei pela janela pra dentro da cabina. O piloto automático tomou um susto grande. Brecou aquele troço, o OVI girou, girou, girou e a força centrífuga me encolheu de novo. Que paradoxo!

Chegando em casa, L-Carnosina pra cabeça. A enciclopédia espraiada na prateleira me aguardava, olhão arregalado.

GABA agora, falei. E engoli minha cápsula de ácido gama-amino-butírico.

No meio daquele pout-pourri de neurotransmissores me acalmei. E voei e voei e voei por lugares desconhecidos e encantados procurando por um orelhão. E quando o encontrei ele não funcionava.

Tentei voltar e não achava o caminho de volta. A minha turma tinha ficado na entrada do mundo astral e eu comecei a ficar preocupada. Sem saber o que fazer me lembrei da enciclopédia: Isômero opticamente ativo.

Aminoácido. Eu precisava urgentemente de um pra me mostrar o caminho de volta.

Agarrei o primeiro cogumelo que avistei, o alcalóide fez efeito antes do aminoácido, e uma fauna desfilou em volta da minha cabeça.

A fauna era selvagem e eu era a caça. E fugindo dela alcancei a minha turma e esta quis me devorar.

E eu voei outra vez e os canibais me alcançaram e me comeram.

...



sábado, 16 de agosto de 2008

Para comunicólogo ver



- Mariiia joga a chave.

- Eu não a estou achando meu bem.

- E agora Maria? Eu perdi a minha chave.

- Entra pelo túnel das telecomunicações.

- Do que tu estás a falar Maria?

- Este mesmo canal por onde entram as ondas eletromagnéticas.

- Ora Maria. Estás a me gozar.

- Não estou. Tu que estás a duvidar.

- Se tu me disseres onde se localiza a porta desse túnel, eu entrarei.

- Pega uma escada, uma bem alta que alcance as nuvens, onde se propagam as ondas eletromagnéticas, e pega carona com elas. Elas te mostrarão a porta.

- Mas Maria, eles são bem mais magrinhas do que eu, a porta deve ser um tanto estreita, e eu não conseguirei passar através dela.

- Meu bem tu conseguirás. É só o que posso te dizer.

- Até logo Maria. Aguarde-me um instante.

- Como chegaste rápido José.

- Tu não sabes a quantas por hora viajam as ondas eletromagnéticas?

- Eu já ia me esquecendo. Então como foi teu dia?

- Tal como saiu no jornal Maria.

- Tu não saíste no jornal José.

- Todas as notícias estão atrás do jornal.

- És tu que estás a me gozar, porque quando viro o jornal para trás a fim de ler sobre o teu dia, tuas notícias se movem para trás dele, e assim nunca consigo alcançá-las, como um cachorro que tenta morder o próprio rabo.

- Deixa isso pra lá Maria. Permita-me navegar agora nessa tua onda eletromagnética. Larga dessa pia.

- O celular está tocando. Não vais atendê-lo?

- Não estou de plantão nesta noite Maria. Venha logo se não vou navegar nas ondas da televisão.

- Já estou indo. Não vá me trair com a TV.

- Mas enquanto tu te demoras eu me distraio com o meu 3G.

- Estás me traindo com a Internet?

- Não Maria. Tu és muito desconfiada.

- Decerto sou. Está aqui a tua chave.

- Tu me enganaste Maria?

- Eu acabei de encontrá-la no bolso do teu casaco.

- Não creio que ela estivesse lá. Eu a procurei em todos os cantos.

- Tu desconfias de mim?

- Não só desconfio como acho que tu estás me traindo.

- Vamos acabar já com esse mal-entendido.

- De que maneira Maria? Eu simplesmente devo pôr de lado a minha tiara de cornos e ajeitar a minha cabeleira?

- Tu estás delirando.

- Pois que esteja. É que não consigo mais confiar em ti desde que tu me enganaste. Adeus Maria.

- Não meu José. O que tu vais fazer é uma loucura. Há de haver uma explicação.

- E a quem tu vais imputar a culpa?

- Foram as ondas, só pode, foram elas que colocaram as chaves no bolso do teu casaco assim que tu chegaste. Elas a tinham escondido certamente.

- Teremos que conversar sério com elas.

- Por favor. Não vá expulsá-las. São elas que nos comunicam com o mundo. Sem elas voltaríamos à idade da pedra.

- Venha cá Maria. Perdoa-me essa desconfiança.

- Oh meu José. Por pouco tu me deixavas. Vamos fazer um voto: Nunca nos deixaremos, mesmo que as más ondas infernizem o nosso casamento.

- Sim Maria. Olha ali atrás da cortina. Elas estão rindo de nós.

- É que a falta de comunicação acaba com qualquer relacionamento. Elas estão rindo da tua precipitação.

- Ah Maria. É duro ter que te dar a razão.

- Vês como é importante a comunicação?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Nostalgia de Ex-Crianças



-Eu gostava do Tom e Jerry

-E eu gostava do pica-pau

-Eu assistia todo dia o Batman à 1:30. Várias vezes cheguei atrasada na aula por causa dele.

-Eu adorava Jetsons, não tá mais passando né?

-Só na NET.

-Eu adorava a família de pedra. Tive uma boneca igual à Pedrita.

-Eu era fã do Scooby-Doo. E do Shmoo, um bichinho branco que virava qualquer coisa que ele quisesse.

-Ai, eu gostava do Van Damme.

-E eu da Mulher Maravilha.

-O homem-aranha eu ainda assisto.

-Fica quieto criança grande.

-Eu brincava com as minhas amigas de Penélope Charmosa. A gente se vestia toda de rosa.

-Não era de Pantera cor-de-rosa?

-Eu não perdia um Ducktales, os caçadores de aventuras. E eu acreditava que era tudo verdade.

-Eu morria de medo daqueles monstrinhos dos ursos carinhosos.

-Eu me apaixonei pelo He-Man.

-Isso não é nada. Eu beijei a She-Ha.

-Beijou a tela da TV, seu bobo.

-Eu me casei com a Jen, quer dizer, com uma das identidades secretas dela.

-Só tu mesmo.

-Dá licença que está na hora do meu desenho.

-Coitado. Pegou a Síndrome de Peter Pan.

-É que o papai smurf aqui é coruja e vai acompanhar o filhão.

-Então eu vou buscar a minha Branca de Neve no colégio.

-Até mais pessoal. It´s all folks!


A Coruja anãzinha



Ganhei uma coruja de pelúcia de uma amigo. Ele me mandou lá do Rio de Janeiro, um pouco pra cima, Paty dos Alferes.

Mandou um bilhete junto explicando: A coruja é o símbolo da sabedoria.

Não me considero digna de tal presente. Não imaginam o que eu faria se duas mulheres viessem a mim clamando em alta voz: Esse filho é meu. Só Salomão mesmo pra mandar cortar ao meio e dar metade pra cada uma. E a história conta que a mãe que bradou "não mata" levou o filho.

Fosse eu solicitada a tomar uma decisão justa e rápida mandava chamar o Conselho Tutelar. Oras, eles estão acostumados a lidar com dramas infantis (em todos os sentidos)todos os dias.

O fato é que, dizem os eruditos, a partilha era a decisão comumente tomada no caso de haver disputa de quaisquer bens. Salomão apenas teria aplicado a regra ordinária.

Voltando à coruja. Coloquei-a no canto da minha cama, junto à parede. Ela permaneceu lá por um bom tempo, dormindo de dia e me vigiando à noite.

Mas eu tinha um quê contra ela. Achava-a horrível, baixinha, achatada. Calculei que tivessem errado a sua proporção. Um belo dia tive plena consciência dessa desafeição pela feiosa vigia noturna. Movida pelo desejo de confirmar a minha hipótese ou refutá-la para sempre abri uma enciclopédia, a Conhecer, e consultei o verbete coruja.

Dizia lá: A coruja tem 21 cm. Em seguida guardei o volume de volta na estante e peguei a régua, estas de estudante. Tirei a anãzinha do canto da cama e a medi: 21 cm. Por algum tempo me diverti mostrando a coincidência às pessoas que vinham em nossa casa.

Acho difícil definir sabedoria. Nem mesmo o dicionário possui uma definição satisfatória. Há pelo menos uns 10 significados diferentes para este verbete.

Sócrates dá uma luz: Só há um bem que é a sabedoria e um mal que é a ignorância.

Então a sabedoria opõe-se à ignorância. Quer dizer, é algum tipo de conhecimento.
É um bom início.

Quero ressaltar que é muito popular uma falsa concepção de sabedoria, aquela em que o sujeito muito graduado, cheio de títulos é tido com uma pessoa sábia.

Não é a esse tipo de conhecimento que Sócrates se refere. Não é sequer necessário frequentar uma universidade para ter sabedoria. Pior, há casos de doutores, pesquisadores, verdadeiras estrelas e astros intelectuais que cometem enormes desatinos no que se refere à vida pessoal. Daí perguntam. Como pode? Não é um doutor?

É que conhecimento técnico não é sabedoria. Tampouco inteligência. Esta última mede apenas a capacidade de processar e armazenar conhecimentos em nossa sofisticada CPU chamada cérebro.

Acredito que a sabedoria, essa ferramenta tão preciosa, completamente indispensável na obtenção do sucesso e da felicidade é a "recém descoberta" Inteligência Emocional.