quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Raízes Taquara



No setor 28 da primeira seção do Cemitério Municipal de Taquara, no epitáfio imediatamente à esquerda do corredor lê-se:

IN FRIEDEN RUHEN HIER

JOSEPH LEITTERSTORF

GEB. 21.5.1829
GEST. 12.1.1901

ANNA MARIA LEITTERSTORF
GEB. SCHIMITT

GEB. 22.6.1837
GEST. 15.7.1911

SIE MÖGEN SANFT SCHLAFEN! ;

e logo à direita:

HIER RUHT IN FRIEDEN

JULIUS LEITTERSTORF
GEB. GALLI

GEB. 25.2.1859
GEST. 20.4.1914.


Julius Leitterstorf, nascido Galli, foi adotado pelo casal Joseph e Anna Maria Leitterstorf, e por isso leva esse sobrenome. Além disso há evidências de que Julius era casado com Carolina, nascida Kautzmann. No entanto o nome da sua cônjuge não consta no epitáfio, apenas a foto. A história em questão gira em torno das esculturas em mármore de carrara que adornam os respectivos jazigos. À esquerda vê-se a escultura de uma mulher cuja cabeça é adornada por um véu e cujas mãos seguram uma coroa. À direita uma escultura em forma de mulher segura uma palma apontando para baixo. Ambas esculturas encontram-se viradas para dentro do corredor, ou seja, aparentemente elas estão de costas uma para a outra. Aí está.


Há uma antiga lenda em Taquara que ouvi da boca de familiares que por sua vez ouviram da boca da minha avó Martha Schuck Gonzalez, a respeito dessas obras de arte. Minha avó contava de duas mulheres as quais teriam sido inimigas e por isso teriam pedido que fizessem as esculturas delas e colocassem de costas como elas estão hoje. Aquilo significaria: INIMIGAS NA VIDA E NA MORTE! Outra versão que ouvi dos habitantes de Taquara conta que haveria uma intriga entre os dois casais. No necrotério a Sra. Marlene, funcionária antiga, relatou o que ela ouviu nos corredores do Cemitério: as duas mulheres, nora e sogra, teriam se apaixonado por um mesmo padre.


Tendo pesquisado no Arquivo Histórico do RS fui encaminhada ao Dr. Arnaldo Walter Doberstein, acadêmico da PUC-RS e historiador especialista em arte funerária. Este me explicou que a palma apontando para baixo significa morte, e que, mais geralmente, qualquer objeto apontando para baixo tem esse significado. O contrário, isto é, apontando para cima simboliza vida. Também a mulher remete à Morte pois esta última era considerada sedutora. Daí a predominância de 'santas' nos cemitérios. Com relação à lenda ele sugeriu tratar-se, provavelmente, de trânsito alegórico. Tal definição é usada por ele para caracterizar um fato muito comum às esculturas funerárias: com o passar dos anos, as pessoas atribuíam à elas um significado diferente daquele proposto originalmente. É uma hipótese apenas, que ele formulou com os dados que lhe forneci, mas serve no mínimo para explicar a existência de mais de uma versão para a história mencionada acima.


Em um de seus livros o Dr. Doberstein conta que depois da primeira Guerra Mundial declinou o costume social de se ornamentar profusamente as fachadas. Para compensar essa perda outras possibilidades se abriram no campo de trabalho dos escultores. Uma delas foi na ornamentação de mausoléus. Desde a virada do século vinha se propagando entre as elites gaúchas o hábito de encomendar figuras ornamentais para os jazigos familiares. A maior parte delas simbolizavam conceitos religiosos como a Fé, Esperança, Caridade, Justiça Divina, Juízo Final e Ressurreição. Algumas correspondem a sentimentos humanos diante da Morte como a Dor consolando-se na Fé, a Resignação, a Saudade e o Luto. Outras biografavam aspectos da vida do morto como suas virtudes, atividades e preferências.


Clareada a questão só nos resta deixar os falecidos descansarem em paz. Este era o desejo deles e também o epitáfio à esquerda:

EM PAZ DESCANSAM AQUI

JOSEPH LEITTERSTORF

NASCIDO EM 21.5.1829
FALECIDO EM 12.1.1901

ANNA MARIA LEITTERSTORF
NASCIDA SCHIMITT

NASCIDA EM 22.6.1837
FALECIDA EM 15.7.1911

ELES GOSTARIAM DE DESCANSAR EM PAZ!



E à direita:

AQUI DESCANSA EM PAZ

JULIUS LEITTERSTORF
NASCIDO GALLI

NASCIDO EM 25.2.1859
FALECIDO EM 20.4.1914.



Agradeço a valiosa colaboração do prof. Dr. Arnaldo Walter Doberstein, da srta. Miriam Ney Ostermann, da profa. Maria Eunice Müller Kautzmann, e do prof. Osmar Arend.

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